o mosal

O MOSAL é um coletivo formado por pessoas e entidades de Florianópolis cujo objetivo é influir nas políticas públicas de saneamento básico, assim como promover a conscientização dos cidadãos através de ações e oficinas.
SANEAMENTO DESCENTRALIZADO
ESGOTAMENTO SANITÁRIO

RESÍDUOS SÓLIDOS

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

A lei do caos


Uma ação com o objetivo de frear o crescimento desordenado em duas APPs (áreas de preservação permanente) no Norte da Ilha, uma localizada no Papaquara (em Canasvieiras) e a outra no Morro do Mosquito (nos Ingleses) foi realizada pelo Grupo de Prevenção a Desastres de Florianópolis nesta terça-feira (11 de janeiro). Além da questão da ocupação irregular da área, houve também denúncia de acúmulo de lixo, poluindo a área de preservação permanente e aumentando a chance de proliferação de doenças.
A situação pode ser explicada pelo fato de que uma parte da população local dedica-se à coleta de recicláveis, atividade exercida sem apoio do poder público, o que implica na ausência de instalações adequadas, ausência de orientação e controle, bem como falta de recursos que viabilizem a destinação do material rejeitado, provocando o acúmulo de lixo na área.
Não é por menos que o MOSAL insiste tanto no modelo descentralizado com profundo controle social, tanto no que se refere ao esgotamento sanitário como na questão dos resíduos sólidos.

A MPB Engenharia, contratada da prefeitura, apresentou no PMISB, quatro grandes centros de recepção, triagem e encaminhamento de materiais recicláveis com outros centros menores de coleta espalhados pelos bairros. O MOSAL defende a criação de centros de recepção, triagem e destinação completos em todos os bairros, valorizando e dando autonomia às associações de catadores das diversas regiões da cidade.

Por outro lado, o caso de poluição do Rio Papaquara não tem nada de novo. Denúncias de poluição por esgoto e óleo, provenientes de condomínios e oficinas presentes na região foram feitas já em 2005.

Em 2009, pesquisa sobre a qualidade da água na bacia hidrográfica do rio desenvolvida pela IF-SC e o ICMBio comprovou que o rio era seriamente afetado pelo despejo de esgoto. Houve denúncia de que poluição era causada pela ETE de Canasvieiras.

Não há como aceitar as metas sugeridas pelo PMISB, que empurram soluções com a barriga, pela falta de vontade política e interesses lobistas, em NÃO resolver a questão do lixo através da reciclagem. Como assim? Bem, os olhos dos empreiteiros e empresários do lixo estão crescendo... Sai o aterro... entra o incinerador! Quem se importa com a ecologia, com o bom senso e com os catadores? A lei aprovada pelo Lula? Será mesmo que ela pega?
O MOSAL pergunta:

Quem precisa da energia dos incineradores quando tantas hidrelétricas já estão na pauta do dia? Não bastam as intenções de poluir mais ainda nossas águas com o projeto de saneamento centralizado com emissários, ainda teremos que conviver (viver?) com a poluição venenosa dos incineradores?
Mas, segundo a lógica em voga...  as perguntas feitas (pelo outro lado) são:”quem é que precisa da ilha preservada, mesmo? E de que valem esses catadores que andam carregados por aí, atrapalhando o trânsito e a paisagem? Eles só sujam os locais por onde se instalam, como é o caso das margens do Rio Papaquara. Mais vale encher os bolsos de dinheiro com a especulação, construções de grandes “obras”... não sou eu que vou morar aqui”...
Raquel Macruz
veja também artigo sobre incineradores no blog 

http://gertschinkediscuteosaneamento.blogspot.com/

domingo, 9 de janeiro de 2011

O lobby e as péssimas intenções das grandes empresas de incineração

Ao final do ano passado, quando da apresentação do PMISB, o MOSAL alertou a todos sobre o discurso feito pelo representante da MPB Engenharia, no qual declarava que "haveria de se buscar novas soluções ao aterro sanitário de Biguaçu", uma vez que a vida útil (???) do mesmo é de apenas mais alguns anos e diante da “constatação” de que apenas cerca de 4% do lixo é separado na cidade, dando a dica de que o objetivo proposto pelas comunidades de se atingir a meta de 60% em 20 anos é impossível ( principalmente, diante da falta de interesse e vontade política para que tal aconteça), e acenando de forma velada, a construção de incineradores como alternativa à urgência do problema do lixo na cidade.
O que parecia ser uma ilação, por parte do MOSAL, pode agora ter sua confirmação no artigo de Washington Novaes abaixo postado, com alguns trechos tidos pelo MOSAL como relevantes para alertar nossos membros e simpatizantes sobre a denúncia feita anteriormente.
O forte lobby que, ao mesmo tempo dá garantias de lucros aos empresários do lixo, dando a eles larga margem de tempo de funcionamento dos aterros sanitários até que se restabeleçam no mercado, sem prejuízos, é o mesmo que atuará para a construção de incineradores como “solução”, trazendo como bandeira, mais do que antiecológica e cara, a incineração do lixo com dupla função: “desaparecimento” do lixo e fonte de produção de energia através da queima do mesmo. 
É a sustentabilidade política do lucro do empresariado indo, uma vez mais, na contramão das soluções adotadas em países, onde o desenvolvimento ecologicamente orientado é levado a sério.


Raquel Macruz

O lixo, agora entre avanços e dúvidas

07 de janeiro de 2011 | 0h 00 Washington Novaes - O Estado de S.Paulo 


Dois dias antes do último Natal, ao regulamentar por decreto-lei a Política Nacional de Resíduos Sólidos, que já sancionara, o então presidente da República, acertadamente, incluiu a não geração do lixo, a redução, a reutilização, a reciclagem e o tratamento de resíduos sólidos como opções prioritárias, antes de se pensar em incineração. Restabeleceu, assim, a direção correta, ameaçada pelo Senado, que, ao aprovar o projeto da política, suprimiu dispositivo que só permitia a queima de resíduos sólidos quanto esgotadas as outras opções. O projeto deveria ter voltado à Câmara dos Deputados - já que fora modificado. Mas não se fez isso, como já acontecera com a Lei da Ficha Limpa. O projeto foi à Presidência e ali sancionado, sem nenhum reparo.
Agora, corrige-se a má direção, mas ainda com uma ameaça no ar: o decreto-lei deixa uma brecha ao estabelecer que "a recuperação energética" de resíduos sólidos "deverá ser disciplinada em ato conjunto dos Ministérios do Meio Ambiente, das Minas e Energia e das Cidades", no máximo, em 180 dias. Embora ovacionado pelos membros de cooperativas de catadores ao assinar o decreto durante congresso que reunia seus membros, o então chefe do governo federal deixou essa brecha, que pode até prejudicá-los. Porque cabe perguntar: que acontecerá no ato disciplinador, sabendo-se a força dos lobbies de empresas de incineração de lixo, quase todas ligadas a megaempreiteiras da área de construção, hoje com forte influência nas mais altas políticas brasileiras, principalmente nas áreas de energia, projetos habitacionais e até meio ambiente (vide licenciamento de controvertidas hidrelétricas na Amazônia)? Corretamente, porém, o decreto distingue da incineração de resíduos o aproveitamento em biodigestores ou a utilização de gases oriundos da decomposição de matéria orgânica em aterros sanitários.
De qualquer forma, além de estabelecer aquelas prioridades, o decreto-lei prevê penalidades se não cumprida a obrigação de coleta seletiva (44% dos municípios brasileiros não a fazem) e a logística reversa que torna obrigatório o retorno aos fabricantes de itens como pilhas, pneus e produtos eletrônicos, entre outros. Haverá multas pesadas, de até R$ 50 milhões, para quem lançar resíduos sólidos em locais como praias ou não der destinação adequada a resíduos perigosos. Será obrigatória a substituição de lixões (existentes em pelo menos 50% dos municípios) por aterros, assim como a elaboração de planos de gestão também nos municípios e Estados. A coleta em qualquer lugar precisará, no mínimo, separar lixo orgânico (úmido) do lixo seco, para facilitar a reciclagem. E as cooperativas de catadores - há cerca de 1 milhão deles no País - terão linhas preferenciais de financiamento.
É um terreno no qual precisamos avançar muito e com urgência. As usinas de reciclagem do poder público no País só reciclam entre 1% e 2% do lixo domiciliar e comercial (o total é de pelo menos 230 mil toneladas diárias, segundo o IBGE 2002). A situação - como tem sido dito tantas vezes neste espaço - só não é mais dramática graças à atuação desse milhão de catadores, que, sob sol e chuva, sete dias por semana, recolhem e encaminham a empresas que os reciclam mais de 30% do papel e papelão e parcelas consideráveis do plástico, do vidro, do pet, do alumínio e de outros materiais.
Mas os catadores precisam de projetos integrados em que, com financiamentos públicos, tenham equipamentos adequados de coleta seletiva (caminhões com contêineres separados para lixo úmido e seco), convênios remunerados pelas prefeituras, além de usinas de reciclagem onde possam transformar papel e papelão em telhas revestidas de betume (para substituir com vantagens as de amianto), reciclar o PVC e produzir mangueiras pretas, compostar o lixo orgânico e transformá-lo em fertilizante, moer o vidro e encaminhá-lo para recicladoras, assim como latas de alumínio. Onde isso é ou já foi feito (como em Goiânia), a redução de lixo encaminhado ao aterro chega a 80%, com enorme economia para o poder público, livrando-o da dependência de grandes empresas, que hoje recebem mais de R$ 15milhões por dia para coletar e levar os resíduos para aterros ou lixões.
Esse processo permite também evitar o desperdício de materiais. Já se mencionou aqui estudo da Unesp de Sorocaba concluindo que 91% dos resíduos contidos no lixo de Indaiatuba (mais de 100 toneladas/dia) seriam reaproveitáveis ou recicláveis. Permitiria ainda aliviar parcialmente o drama das grandes cidades brasileiras, quase todas com seus aterros esgotados ou próximos disso e, alegadamente, sem recursos para implantar novas unidades. A partir daí, surge a pressão das empresas de incineração. E por esse caminho o Recife já parte para uma usina de incineração de 1350 toneladas diárias (no momento, com licença ambiental embargada pelo município do Cabo). Unaí (MG) tomou o mesmo caminho. Barueri já está promovendo licitação para incinerar 750 toneladas diárias. São Sebastião ameaça seguir o mesmo rumo, assim como Brasília e a Baixada Fluminense (nesta, inclusive, com um projeto em Santa Cruz para incinerar resíduos perigosos).
Muitos estudiosos da área, como Cícero Bley Jr., já se cansaram de citar os problemas da incineração: custos muito altos, emissão de cancerígenos como furanos e dioxina (a não ser que a temperatura esteja acima de 900 graus - o que é difícil com a mistura de lixo úmido, que baixa a temperatura), produção de escória altamente perigosa (com metais pesados e outros tóxicos, que são carreados para os rios), geração de gases em proporção maior do que em usinas termoelétricas - entre outros problemas. Não é acaso que a resistência a esse processo cresça no mundo e já haja países que o proíbam. Sem falar em dependência tecnológica.
Vamos ver agora o que farão os três Ministérios encarregados de regulamentar a "recuperação energética" de resíduos.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Lixo de Florianópolis VALE OURO no mercado da iniciativa privada

Por que será que as leis do lixo não pegam?
Por que depois de tantos e tantos anos falando-se em reciclagem, apenas 4% do lixo é separado na cidade?
E você acha que adianta ser voluntário da COMCAP para dar exemplo?
Você se lembra do episódio da licitação do lixo em Florianópolis no início do ano passado?



Licitação ilícita do lixo de Floripa (Ana Echevenguá- 2010)


Temporada de verão: a capital catarinense está cheia de turistas. Quem desconhece os nossos problemas, compra a propaganda midiática de que aqui é o paraíso e decide gastar seus tostões nas nossas praias.
Isso é ótimo para os interessados no lixo da capital. Cada pessoa produz, em média, de 800 gramas a 1 quilo de lixo por dia. Segundo informações contidas no website da Prefeitura, Florianópolis produz, no período de dezembro a março de cada ano, 466 toneladas/dia (14 mil toneladas/mês). E, de abril a novembro, 383 toneladas/dia (11,5 mil toneladas/mês)1.
Lixo é dinheiro! A limpeza urbana, no Brasil, movimenta anualmente mais de R$ 17 bilhões – dados da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais.
E o lixo nosso de cada dia precisa ser coletado, transportado, tratado, depositado… Pagamos – e pagamos bem caro – por isso!
Janeiro, mês de recesso, férias, … Mas o processo de licitação do lixo de Floripa estava nas ruas. Mas a marcha deste processo, “que tem por objeto contrato que envolve algumas dezenas de milhões de reais”, foi suspensa – liminarmente – em 14 de janeiro de 2010, pelo Juiz de Direito Hélio do Valle Pereira2. O Magistrado acatou a tese de que “apenas uma empresa, aquela hoje aqui já atua, deteria a possibilidade de atender a todos os pontos do objeto licitado”.
Bem, trocando em miúdos, há fortes indícios de que o edital foi encomendado. Ou seja, elaborado para beneficiar a atual empresa que trata os resíduos da Grande Florianópolis. Aquela que está sob investigação da Polícia Federal, cujos diretores foram presos na estrondosa Operação Dríade3, no final de 2008. Lembram disso?
Ana Echevenguá, advogada ambientalista, coordenadora do programa Eco&Ação, presidente do Instituto Eco&Ação e da Academia Livre das Água 


12 setores exigem medidas urgentes para País avançar

Lourival Sant’Anna - O Estado de S.Paulo – 31.12.10

...Problemas crônicos e estruturais tornam o atual crescimento insustentável, condenando o Brasil à estagnação e ao atraso, se nada for feito. Essa é a má notícia. A boa notícia é que a maioria dos obstáculos pode ser removida com mudanças relativamente simples, ditadas pelo senso comum, que não esbarram necessariamente em interesses sedimentados e dispensam até mesmo a sólida maioria que o governo Dilma Rousseff terá no Congresso....O Estado examinou, com 62 especialistas, além de estudos preparados por entidades, 12 setores estratégicos, dos quais dependem o crescimento e o desenvolvimento sustentáveis do Brasil...
...O Estado examinou, com 62 especialistas, além de estudos preparados por entidades, 12 setores estratégicos, dos quais dependem o crescimento e o desenvolvimento sustentáveis do Brasil...
4. SANEAMENTO
Diagnóstico
Lei aprovada em 2007 define o marco regulatório do saneamento, delegando a titularidade aos municípios. Empresas estaduais, a maioria mal gerida e sem recursos, respondem por 70% do setor. O abastecimento avançou muito: 79% dos brasileiros têm acesso a água tratada. Mas apenas 44% são atendidos por esgoto, do qual 29% é tratado. São necessários R$ 255 bilhões de investimentos para universalização do esgoto e da água tratada. Mantido o atual ritmo de investimentos, levaria de 30 a 40 anos. Em média, desperdiça-se 40% da água em vazamentos na rede. Todas as bacias hidrográficas, da Bahia ao Rio Grande do Sul, estão em situação crítica por causa da poluição. Doenças causadas pela contaminação da água respondem por 60% das internações de crianças nos hospitais públicos e por 80% de suas consultas no SUS. Prejudicam o desenvolvimento cerebral e a capacidade de aprender.
Soluções
Rever o Plano Nacional de Saneamento, restringindo-o a princípios genéricos e deixando que municípios definam os detalhes de suas regras, como prazos, índices de desempenho e se terão agência reguladora própria ou farão convênio com municípios da mesma bacia hidrográfica ou com o Estado.
Ajudar os municípios a elaborar sua regulação e planejamento, em caso de agência própria, e a capacitar funcionários.
Orientar os municípios na contratação de empresas privadas prestadoras de serviços, que têm mais capacidade de gestão.
Estimular Parcerias Público-Privadas, aumentando a participação do setor privado de 10% para 30% em dez anos (a dos Estados é hoje de 70% e a dos municípios, 20%).
Agilizar a aprovação de financiamentos pelo BNDES e pela Caixa Econômica Federal, que hoje demora um ano ou mais.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Uma análise desapaixonada da proposta do PMISB

“PLACEBO DEMOCRÁTICO” IGUAL AO PDP
- uma análise desapaixonada da proposta do PMISB

A recente realização da bateria de Audiências Públicas para apresentação do PMISB - Plano Municipal Integrado de Saneamento Básico, atendeu a um rito que a PMF, leia-se governos Dario 1 e 2, dominam com esmero científico. Coisa nunca vista na cidade, a participação popular foi “tão expressiva” que a quantidade de autoridades e pessoal de apoio, via de regra, era maior que a do público presente. Não era por menos, pois além da péssima divulgação, a opção por esse período tumultuado do ano parece ter sido proposital. Resultado: participação popular zero.
O que se assistiu foi mais uma daqueles teatros no qual tudo está previamente programado e deve ser executado para atender a uma obrigação legal. Proposta mal feita, muito aquém do que realmente se necessita em termos de qualidade nas diretrizes e quantidade de investimentos na área, ficamos com a impressão de que lá por 2030, prazo teto para as metas, ainda estaremos longe de algo que se possa qualificar como “aceitável”.
Enquanto o mundo está às voltas com o aquecimento global, falta de água potável, contaminação de toda ordem, em especial dos aqüíferos, desaparecimento de espécies, degradação ecológica urbana e no campo, a PMF produz uma proposta que mais parece ter sido feita sob encomenda para a CASAN, contumaz inadimplente na execução do mínimo necessário e integrada ao esquema político que alimenta a fértil indústria de água potável, (des)tratamento de esgoto, e eleição de vários políticos no Estado, além de agrupar uma montanha destes em seus quadros de direção administrativa. E todo ano também distribui faustos lucros a estes.
Assim como Dario fez ao longo de seus dois governos com o PDP, procrastinando o processo para esgarçá-lo até que todos os participantes dessem de ombros (alguns literalmente morreram na praia) com vistas a produzir um projeto fajuto, fraudado na sua participação comunitária e moldado aos interesses da construção civil, setor sócio do seu grupo político regional, agora ele novamente faz com a discussão do PMISB.
Trata-se de uma dinâmica que produz um “placebo democrático” – a impressão de que você participa livremente, exercita sua cidadania, mas, ao final, tudo o que você sugeriu, é apenas letra morta, nada é levado realmente em consideração. Resultado: paulatina frustração em participar do circo, já que o ritual tem se mostrado somente para isso. Quando argumento que “audiência não é anuência”, mais uma vez estamos diante de um processo que mostra exatamente o contrário – audiências para mera anuência, pois nenhuma das questões que apresentamos foi efetivamente levada em consideração, apenas algumas de forma parcial, absolutamente aquém do que propusemos modificar para que este plano realmente sirva para um avanço razoável.
Locutor enfezado, total formalismo, regimento draconiano, pompa e prosa, situação que reproduziu eventos de posse de mandatários de órgãos estatais, cenário totalmente avesso ao padrão popular de participação na discussão, premeditada inibição do público para que esta não acontecesse. Na AP do Rio Tavares, por exemplo, na qual participei, foi somente depois que um senhor de idade arrebatou o microfone da assessora da PMF e reclamou aos berros da tragicômica situação, que a condução dos trabalhos afrouxou um pouco o regimento interno e permitiu a troca de idéias entre as pessoas da comunidade e os funcionários da PMF e seus assessores ignorando o infalível cronômetro.
Situação humilhante para a democracia e demonstra que essas fórmulas institucionais já não mais suprem as reais necessidades de participação popular. Há que se transpor os limites impostos pela democracia participativa que hoje se limita na mera exposição e audição da vontade popular, mas não a acolhe na formulação das políticas públicas que os governos executam. Nesse contexto, o espaço democrático é concedido ao povo na forma de um “placebo democrático”, que serve para mera legitimação das propostas dos executivos. A realidade pede uma “democracia conquistada”, de nova qualidade, para efetivo acolhimento da vontade popular no processo de formulação das políticas públicas, processo este que fará do povo um ator cúmplice e efetivo fiscalizador dos executivos, primeiro passo para um eficiente “controle social” sobre o Estado. Parece que disso ainda estamos muito, muito longe em nosso país. Um fato que denuncia todo esse teatrinho é que a LDO – Lei de Diretrizes Orçamentárias, recentemente entregue pelo Prefeito à Câmara Municipal, não traz um centavo de investimento em saneamento básico para 2011. Voz corrente nos bastidores da PMF e lembrado nas APs, é de que “se esqueceram” de colocar alguma verba no orçamento, embora estivessem trabalhando arduamente nos cálculos de investimentos para os próximos vinte anos. Haja explicação!!!
Defender LIXO ZERO para resíduos sólidos e MODELO DESCENTRALIZADO para tratamento de esgotos, parecem ser coisas do outro mundo aos ouvidos de alguns funcionários da PMF e assessores que montaram a proposta. São coisas impossíveis de ser implementadas, mantidas as atuais estruturas de funcionamento da máquina municipal e da empresa de saneamento estadual. Mas isso terá que ser feito dia mais, dia menos, pois a situação exigirá profunda reformulação nessa área para dar conta da execução do próprio plano se a intenção é realmente implementá-lo. A realidade requer uma gestão totalmente nova. Ao transportar lixo misturado por tonelada para Biguaçu não haverá santo que faça incrementar um esquema de coleta seletiva eficiente, pois o “bolo” diminuirá, e isso gerará conseqüências políticas indesejáveis aos atuais mandatários. Assim, letra morta para “incrementar o índice de reciclagem” que hoje não passa de 5% do total recolhido no município. É uma vergonha para nossa cidade e assim continuará se não se reformular toda a política para o setor com coragem e investindo massivamente para mudar o péssimo padrão atual de saneamento básico. Tarefa “reservada” para um outro governo.
Nas APs foi dito e reafirmado que o “aterro sanitário” de Biguaçu esgotará sua capacidade daqui a seis anos, prazo no qual terá que ser encontrada outra solução para depositar pelo menos a maior parte do lixo recolhido na cidade. Adivinho que tal como uma fênix surgida das cinzas, logo, logo, mais uma vez se aventará a fórmula mágica dos incineradores de lixo para dar conta do “abacaxi”. Até mesmo diante dessa datada situação, seria imperioso incrementar ao máximo o processo de reciclagem na cidade, coisa em que o plano é de uma timidez humilhante. Na mesma linha, a timidez dos investimentos propostos, na média de R$ 145 milhões/ano na última versão, e, pior, aplicados no longo período de vinte anos (2030), quase uma geração. Uma proposta coerente seria a de comprimir essa agenda para 10 anos, sabendo-se que jamais os governos cumprem os prazos acordados e sempre dão “um jeitinho” para alongá-los, tomando-se mais uma vez o triste exemplo do PDP, que já deveria estar aprovado há pelo menos dois anos. E continua pela metade. Com algum “jeitinho”, ficará para o próximo Prefeito. Haja coração!!!
“Fique em dia com a sua cidade”, é o que diz a propaganda de rádio do governo municipal, convidando você a pagar antecipadamente o IPTU de 2011 com um bom desconto. Na verdade, nós é que temos que propagar que o Dario fique em dia com nossa cidade, pois isso ele não está há muito tempo ao descumprir com o Estatuto da Cidade quando enveredou por uma fraude no processo do PDP, subtraindo-lhe o “P” do participativo.
Gert Schinke, dezembro de 2010

Relato sobre a Audiência Pública - PMISB do dia 13 de dezembro

UM PLANO SOB ENCOMENDA PARA A CASAN

Vários militantes do MOSAL acompanharam a série de Audiências Públicas que a PMF promoveu ao longo do mês passado para apresentar à sociedade florianopolitana a sua proposta do Plano Municipal Integrado de Saneamento Básico – PMISB. Para quem não sabe, a elaboração de um plano desse tipo é obrigação legal, sob pena de a PMF ter bloqueados seus créditos junto ao governo federal (verbas do PAC, por exemplo, entre outras restrições).
As oito APs foram uma tremendo fracasso de público, pois muito mal convocadas nas regiões de abrangência, sendo que naquelas onde houve maior número de participantes, compareceram cerca de trinta pessoas da comunidade. A equipe organizadora da PMF, autoridades e pessoal de apoio, via de regra, somavam outro tanto de pessoas presentes. Concentramos nossa intervenção na AP realizada no Rio Tavares-Campeche, a partir da avaliação de que não faria sentido repetirmos nossos pontos de vista sobre o projeto em todas as audiências.
Um aspecto que chamou atenção foi o rígido formalismo imposto pela equipe da PMF à condução dessas APs: abertura solene com locutor especialmente contratado, regimento interno para cada uma das APs, rígido esquema para intervenção do público participante com falação limitada a dois minutos. Criou-se uma situação exótica envolta numa atmosfera pitoresca: parecia que havia mais autoridades e funcionários públicos do que cidadãos interessados nos debates. Realizada esta bateria de APs, realizou-se mais uma AP Municipal que aconteceu no dia 13.12.10, no Auditório Antonieta de Barros, na ALESC, que contou com, pasmem, não mais que trinta pessoas também, dentre as quais vinte do staff da PMF, autoridades e pessoal de apoio. O ambiente, no enorme salão que comporta mais de mil pessoas, parecia tétrico, para não dizer tragicômico, em se tratando de tema tão importante para a cidade. Mas, a PMF “cumpriu sua obrigação legal”.
Na AP Municipal do dia 13, foi apresentado o projeto do PMISB já contendo supostamente as contribuições colhidas nas APs anteriores, mas como havíamos previsto, apenas algumas dessas contribuições foram incorporadas a nova versão. Em linhas gerais nossa avaliação é de que a atual versão do PMISB é uma virtual “encomenda” para que a CASAN possa cumpri-lo, imaginando que a empresa concessionária irá realmente cumpri-lo nos prazos e nas condições estipuladas.
Nas diretrizes relativas ao esgotamento sanitário, em nenhum momento fala de modelo descentralizado de tratamento que observa as micro-bacias hidrográficas. Pelo contrário, agrupa várias dessas pequenas bacias nas chamadas UTPs – Unidades Territoriais de Planejamento, oito áreas traçadas no município que agrupam alguns bairros limítrofes entre si, para efeito de planejamento urbano, critério que foi utilizado no projeto apresentado no ano passado pela CEPA na elaboração do NÃO participativo Plano Diretor, que ora se encontra na gaveta e enrolado com a Justiça.
Essa questão do modelo descentralizado poderia perfeitamente estar contemplada na diretriz que propõe a “ampliação progressiva da infra-estrutura de coleta e tratamento”. Ora, ainda há poucos dias a CASAN-PMF inaugurou uma Estação de Bombeamento na Cachoeira do Bom Jesus para transpor a bacia hidrográfica e jogar o esgoto coletado naquela região para a ETE de Ingleses. Consuma-se, assim, a não observância do princípio de bacia hidrográfica, a revelia da legislação e das deliberações tiradas no processo do PDP na forma de diretrizes para o tema. A concentração do tratamento, por sua vez, dá espaço para a brilhante “solução” dos emissários submarinos, tese combatida por nós desde seu nascedouro.
Nas diretrizes de resíduos sólidos vemos a repetição do modelo aplicado ao esgoto – centralização de ações de coleta e tratamento. As metas de reciclagem são baixíssimas e partem de uma rede sub-dimensionada de coleta seletiva em torno das chamadas CGRs – Centros de Gerenciamento de Resíduos em número de quatro apenas na cidade toda, agregada de uma rede (não definida) de “coleta de pequenos volumes”, locais onde as pessoas levariam seus resíduos separadamente para posterior encaminhamento para reciclagem.
Vale também ressaltar aqui, o comentário feito pelo representante da empresa MPA, ao referir-se ao aumento do índice de coleta de resíduos sólidos de 40%, em 18 anos, como sugerido no plano inicial, para 60% em 20 anos, segundo proposta das comunidades- quando ele afirmou duvidar da viabilidade dessa meta, uma vez que a coleta seletiva hoje fica em torno de 4%. Levando em consideração que o tempo de vida do aterro sanitário que recebe o lixo de Florianópolis é de no máximo 6 anos, ao invés de tomar a proposta das comunidades como uma obrigação a ser cumprida, o ilustre representante preferiu aventar a possibilidade de “novas alternativas” ao aterro, de onde conclui-se, que desde já, devemos nos mobilizar para que não sejam adotados os obsoletos e antiecológicos incineradores.
Mais uma vez, a proposta ignora deliberações emanadas no processo do PDP. No Pântano do Sul, por exemplo, foi definida e aprovada em Audiência Pública do PDP na qual compareceram 135 pessoas, a destinação de uma área específica no Distrito para um Centro de Coleta e Triagem de Resíduos Sólidos, proposta estendida aos demais Distritos da cidade na forma de diretriz municipal, também  gerada pelo ND distrital. Semelhantes propostas surgiram em outros Distritos da cidade também, mas nada disso tomou corpo no texto apresentado, embora os autores tenham dito que sim.
No que toca ao orçamento apresentado, as metas de investimentos são tão tímidas quanto às propostas citadas anteriormente. Ao longo de 20 anos o PMISB pretende investir cerca de R$ 2,9 bilhões (inicialmente na versão original apresentada nas APs regionais, R$ 1,7bi). Isso corresponde a uma média anual de redondos R$ 145 milhões, o que é muito pouco diante das tremendas e urgentes necessidades que a situação concreta exige para dar conta do problema na cidade.
A proposta defendida pelo MOSAL na AP do Rio Tavares pode ser sintetizada assim:
- Inserir a diretriz de efetivar a ampliação progressiva da rede coletora e tratamento de esgoto com base no modelo descentralizado e observando as micro-bacias hidrográficas (é o modelo que a natureza e a legislação exigem);
- Inserir a diretriz de LIXO ZERO no que toca ao tratamento de resíduos sólidos, como forma de perseguir a meta de atingir um padrão ideal nessa área (é o modelo que já está sendo aplicado em várias regiões mundo afora no qual chega perto do índice de 100% de reciclagem);
- Reduzir o prazo de metas de vinte anos para dez anos, comprimindo os investimentos para a média de R$ 290 milhões anuais ao longo desse período, dada a urgência na expansão desses serviços na busca da sua universalização e qualidade ecológica. Esses volumes, por sua vez, deveriam ignorar o chamado “auto-financiamento”, pois é evidente que isso não suprirá essa conta, sendo que teria que se procurar recursos externos extra-municipais em grande quantidade.
Diante do exposto, fica evidente que o projeto do PMISB proposto pela PMF é modesto demais em suas metas, as quais não atendem as reais necessidades que a população e a natureza da cidade clamam. Mais parece ser feito sob encomenda para que a CASAN possa cumpri-lo sem muito esforço ao longo de vinte anos.
Porém, ainda há dois agravantes nesse processo. Para o ano que vêm a LDO - Lei de Diretrizes Orçamentárias, projeto que o Dario já enviou à Câmara Municipal, não contempla verba alguma para o PMISB, antevendo-se um provável buraco negro em investimentos na área. Com isso, corre-se o sério risco de perder um precioso ano, lacuna aberta para o não cumprimento das metas propostas. O segundo agravante é de que o processo de aprovação desse plano pode se arrastar para muito além do início do ano que vem, o que é certo em função da necessidade de no mínimo mais uma AP Municipal para apresentar a versão final que, por sua vez, ainda terá que ser submetida ao Conselho Municipal de Saneamento Básico, para posterior encaminhamento à Câmara. Esta, na sua tradicional “dinâmica resolvedora”, empurrará o projeto para o segundo semestre de 2011. Fato dado, o projeto será aprovado, na melhor das hipóteses, ao final do ano que vem, o que consumirá mais um precioso ano no cronograma. É por essas e outras razões que nós propomos acelerar o processo por inteiro e reduzir o cronograma do plano para dez anos, ao invés de vinte como quer a PMF.
MOSAL- Movimento Saneamento Alternativo